Carta a Mrs. Eleanor
Oi Mrs Eleanor,
Tudo bem? Sou Caroline Gregory e fui sua aluna na EA, na terceira série, em 1993. Estou escrevendo porque preciso te agradecer.
Agradecer por ter marcado minha vida.
É mais do que justo dizer que você foi a professora mais dedicada que eu já conheci. Aos nove, dez anos de idade é difícil reconhecer. Quando a gente cresce e olha para trás nos damos conta de que tivemos a sorte de aprender com alguém apaixonada por ensinar. De ter tido os melhores exemplos a serem seguidos. Tivemos uma sorte danada.
Já não recordo-me da ordem dos fatores, mas, lembro de incontáveis detalhes que faziam parte daquela rotina. Semanalmente, o prato de cartolina prateada preso na parede, com o nome de cada um de nós e determinadas funções administrativas rodava e cada aluno recebia sua tarefa semanal: aguar as plantinhas que ficavam na porta da sala e as violetas em cima da pia; alimentar e colocar água para nossos amiguinhos Gerbils, os ratinhos que moravam na nossa sala; apagar o quadro negro (ainda na época do giz) e escrever as anotações no quadro; distribuir os deveres de casa.
Lembro-me que depois do almoço sentávamos no chão enquanto você lia para nós. Claro que antes fazíamos uma fila para escovar os dentes. Até de nossos dentes você cuidava! A hora da leitura era o pretexto perfeito para colocar a cabeça nas grandes e coloridas almofadas espalhadas pelo chão e cochilar. Acredito que eu dormia sempre, pois, honestamente, não me lembro de nenhum dos livros lidos por você.
Organizamos o mais memorável e provavelmente um dos mais lucrativos bake sale da historia da Escola Americana! A causa era nobre, deixando alunos das outras turmas mordendo-se de inveja de nós que, com o dinheiro arrecadado, adotamos uma baleia e um macaco. É claro que você nos levou para o zoológico, para que cada um de nós pudesse ver com os próprios olhos o nosso filho adotivo subir nas árvores.
O sucesso foi tão grande que aparecemos no jornal, com direito a foto!
A adoção dos animais em extinção era apenas um passo de uma luta muito maior que você injetou em mim e, posso acreditar que em muitas outras crianças, também: em 1993 tivemos um ano de intensivos ensinamentos e exemplos de ecologia. Fazíamos parte do Kids For Saving The Earth. Fizemos nossas próprias camisetas, pintadas com as palmas de nossas mãos coloridas, a mão de cada aluno na camisa de cada aluno. Todas as sextas-feiras colocávamos a mão no peito e rezávamos a oração dos Kids For Saving the Earth. Acredite, ainda me lembro.
The Earth is my home. I promise to keep it healthy and beautiful. I will love the land, the air, the water and all the living creatures. I will be a defender of my planet. United with friends I will save the Earth.
Nas férias de verão, que tragédia! Você nos passou livros para ler, exercício de matemática diário e, o mais difícil de todos: um guia para escrevermos um livro! O guia, se não me falha a memória, continha um roteiro minucioso. Precisávamos escrever uma página por dia e, ilustrar nossas palavras.
Até a minha mãe ficou impressionada com a quantidade de dever. Lembro-me de ouvi-la resmungando “quanto dever. A menina tá de férias, precisa brincar.” Mas, eu, aluna aplicada e dedicada, entreguei todos os deveres feitos e meu primeiro livro escrito e ilustrado, “Sad Christmas”. Contei a história de um menino de rua que andava triste porque não tinha uma família com quem passar o Natal e, seu pedido a Papai Noel foi ter uma família. O menino foi parar em um orfanato onde foi adotado por uma família e viveu feliz para sempre.
Fizemos uma linda capa verde para meu livro e ele foi para um concurso internacional. Minha mãe gabou-se toda de sua pequena escritora. Fez uma cópia do livro, encadernou e mandou para meu avo, na Inglaterra. Quando meu avo faleceu, meu livro ainda estava na sua estante.
Havia chegado a hora de aprendermos o que era uma biografia e uma auto-biografia. Na biblioteca, fomos para aquele lado da biblioteca que nunca íamos! Você pediu que escolhêssemos alguém que gostaríamos de estudar. Não sei por que cargas d’água fiquei com livro da cientista Marie Curie. Mas, para você, ler nunca era suficiente. Foi necessário fantasiar-me de Marie Curie e apresentar sua biografia para toda a turma. Como fiquei constrangida!
Fiz, também, com meu pai, um trabalho do qual me orgulho até hoje: para apresentar para a turma meu trabalho em defesa da linha de produção inventada por Henry Ford levei centenas de canetas Bic desmontadas para a aula. Dividi a turma em 2: aqueles que fariam a moderna linha de produção e aqueles que fariam a montagem inteira. Meu objetivo era provar que a linha de produção era mais rápida, mas, meu experimento não deu certo, pois, a outra metade da turma estava muito mais empenhada em montar as pilhas de caneta. Fiquei com cara de tacho, mas, ainda orgulhosa de minha criativa iniciativa.
Por seis meses nos envolvemos na alta produção da peça Chocolate Fever. A peça era tão grandiosa que precisou envolver mães e pais. Figurino, cenário, ensaios, textos decorados. De tanto ouvir, algumas das músicas ainda vivem na minha cabeça. Eu me lembro de como você ria quando o Roberto e o Ariel, interpretando ladrões vestidos de palhaço, dançavam e cantavam “on the catwalk, yeah” com os bracinhos para cima.
O cenário era rico. O backstage era o lugar mais legal do mundo. Todos nós, atores, trocavámos de roupa na adrenalina do espetáculo, em nossos esplendorosos camarins. Recebemos flores, tínhamos sucos, biscoitos e guloseimas. Ainda tenho as fotos daquela época em que nem se sonhava em máquina digital.
O ano terminou e eu fui para a quarta serie. Depois quinta, sexta e assim por diante. Esbarrei com professores espetaculares. Aprendi muito naquela escola. Alguns professores me marcaram, mas, nenhum como você. E este mérito é seu, um lugar que você mesma conquistou na minha vida e na minha eterna lembrança. Eu preciso te dizer, com muita sinceridade, que você foi a melhor professora que eu tive em toda a minha vida. Se eu não fui capaz de te agradecer quando tinha meus ingênuos dez anos, gostaria de te agradecer agora.
Para que você saiba um pouco do aconteceu neste tempo que se passou vou te contar um pouco de como estou agora. Já estou com 27 anos. Formei-me pela PUC em jornalismo, profissão que nunca exerci, contudo. Tornei-me montanhista e visitei muitos belos picos por aí. Fui até voluntária do IBAMA! Trabalho com Marketing. Casei-me recentemente com o Pedro, o grande amor da minha vida. Estamos morando em Los Angeles, onde o Pedro faz seu Phd e eu estudo Marketing. Ainda não temos filhos, mas, planejamos nos próximos anos.
Muito obrigada!
Um grande abraço com 17 anos de saudades,
Caroline Gregory

1 Comments:
Muito bonito Carols. Chorei.
Bjs,
Thali
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