Sunday, February 10, 2008

A sala da fantasia

Adoro cinema. Odeio certos detalhes. Filmes norte americanos, nacionais, franceses, alemães, indianos... cinema. O programa é adorável, com pipoca ou sem pipoca. Sessão de meia noite com direito a chopes antes. Sessão das 16:00 junto com a terceira idade. Jantar depois, ou um milk shake de Ovo Maltine grande durante. Cinema abraçadinho e até cinema sozinha, para impulsionar as reflexões. Até os filmes ruins são bons. E os bons, maravilhosos.

Ruim mesmo é sentar na primeira fila. Perco a noção da tela e todos os bons detalhes se distorcem. Não consigo dimensionar as proporções das pessoas, da paisagem, dos objetos que são detalhes fundamentais, subliminares, discretos e indiscretos. O pescoço torce, o ombro enrigece e já se vai o bom humor. Podiam eliminar a primeira, a segunda e a terceira fila do cinema.

Sotaque de ator. Quando um filme americano se passa em outro país, por que não contratam atores nativos? Por que o idioma é o inglês com sotaque? Um bom exemplo é "Amor no tempo do coléra". Inspirado no romance de Gabriel Garcia Marquez, a história se passa na Colombia e os personagens são colombianos. Mas, o idioma é o inglês. Sempre achei isto um bocado ridículo. Uma tentativa esdrúxula de enganar a platéia.

Ontem ouvi, de alguém muito querido, que, assim como há imagens que não podem ser descritas, há palavras que não podem virar imagem. Este é o tênue limiar entre as folhas do livro e as cenas do filme. O que é a força de um, torna-se a fraqueza do outro. Da mesma forma, os complementam. Esta mesma pessoa completou: você pega uma pessoa com o dom da palavra, como Gabriel Garcia Marquez e tenta transformar isto em imagem. É um desafio.

Cinema. Uma sala feita para assistir sonhos. Ilusões. Verdades e mentiras. A sala das fantasias suas e dos outros. Um lugar onde palavras viram imagens, onde americanos ganham sotaques, onde a morte é uma cena, onde algumas imagens são mais felizes em palavras.