As texturas de Babel
Babel, do diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu ("21 Gramas"), é um filme inteligente. Como poucos. Aborda diferentes temas, em locais distintos, de forma extremamente harmônica. Os personagens marroquinos, mexicanos, americanos e japoneses estão longe, muito longe de qualquer estereótipo vulgar. São personagens intensos, enclausurados em seus próprios fardos, ora da imigração ilegal, ora da sexualidade, ora das limitações físicas e das submissões exigidas.
Talvez por ser mexicano e assistir desde sempre sua cultura ser retratada através de cactos, tequila e chapéus de grandes abas pela indústria audiovisual hollywoodiana, Gonzalez tenha desenvolvido sensibilidade madura para respeitar a cultura alheia. Quantos filmes norte americanos, por exemplo, são filmados na Espanha, México, Itália e o idioma local torna-se o inglês com sotaque? É desrespeitoso, quase um insulto à cultura daquele país, mas tornou-se praxe nas pequenas e grandes produções cinematográficas. "Babel" respeita cada cultura através de atores daquele país, que falam os idiomas locais. Parece óbvio, mas requer uma produção demasiadamente mais complexa. O resultado é espetacular.
Espetacular, também, é o roteiro. Dois garotos marroquinos atiram em um ônibus de turismo para testar o riffle que seu pai lhes deu. O tiro acerta Susan, que viajava com seu marido Richard na tentativa de salvar o casamento. A partir da bala perdida, três histórias se montam em quatro países. Os dramas são descontraídos e reconstruídos através da quebra cronológica que permanece durante todo o filme, sendo um dos pontos cruciais para o suspense ininterrupto. A desordem cronológica impede que o espectador se fixe a um personagem e viva os dramas de cada personagem livre de pré-julgamentos.
Além de personagens quase reais, o bonito do filme é a empatia das imagens. Lindas, com muitos planos fechados e cores vivas, movimentos lentos, elas falam de texturas. Pelo toque, nos passam sensações. É quase possível sentir o gosto da comida marroquina ao ver as mãos da família de Youssef manipularem o prato de cuscuz. O braço da babá se enrosca nas costas largas do homem que lhe chama para dançar. O sangue na blusa de Susan e a barba de Richard são texturas que falam mais que palavras. As rugas no rosto da velha que oferece o fumo a Susan e a própria fumaça que se desfaz no quarto são cheiros transmitidos por imagem, são um toque aos olhos. As impressões de "Babel" ficam nas texturas que o filme provoca; no gosto amargo que deixa na boca; na vontade de tocar a pele enrugada, a camisa passada, o sangue seco, a barba para fazer, o vestido vermelho; na aflição que sobra da nudez virgem, na tosse do fumo, na sede no deserto e nas lágrimas derramadas por dores distintas.
Talvez por ser mexicano e assistir desde sempre sua cultura ser retratada através de cactos, tequila e chapéus de grandes abas pela indústria audiovisual hollywoodiana, Gonzalez tenha desenvolvido sensibilidade madura para respeitar a cultura alheia. Quantos filmes norte americanos, por exemplo, são filmados na Espanha, México, Itália e o idioma local torna-se o inglês com sotaque? É desrespeitoso, quase um insulto à cultura daquele país, mas tornou-se praxe nas pequenas e grandes produções cinematográficas. "Babel" respeita cada cultura através de atores daquele país, que falam os idiomas locais. Parece óbvio, mas requer uma produção demasiadamente mais complexa. O resultado é espetacular.
Espetacular, também, é o roteiro. Dois garotos marroquinos atiram em um ônibus de turismo para testar o riffle que seu pai lhes deu. O tiro acerta Susan, que viajava com seu marido Richard na tentativa de salvar o casamento. A partir da bala perdida, três histórias se montam em quatro países. Os dramas são descontraídos e reconstruídos através da quebra cronológica que permanece durante todo o filme, sendo um dos pontos cruciais para o suspense ininterrupto. A desordem cronológica impede que o espectador se fixe a um personagem e viva os dramas de cada personagem livre de pré-julgamentos.
Além de personagens quase reais, o bonito do filme é a empatia das imagens. Lindas, com muitos planos fechados e cores vivas, movimentos lentos, elas falam de texturas. Pelo toque, nos passam sensações. É quase possível sentir o gosto da comida marroquina ao ver as mãos da família de Youssef manipularem o prato de cuscuz. O braço da babá se enrosca nas costas largas do homem que lhe chama para dançar. O sangue na blusa de Susan e a barba de Richard são texturas que falam mais que palavras. As rugas no rosto da velha que oferece o fumo a Susan e a própria fumaça que se desfaz no quarto são cheiros transmitidos por imagem, são um toque aos olhos. As impressões de "Babel" ficam nas texturas que o filme provoca; no gosto amargo que deixa na boca; na vontade de tocar a pele enrugada, a camisa passada, o sangue seco, a barba para fazer, o vestido vermelho; na aflição que sobra da nudez virgem, na tosse do fumo, na sede no deserto e nas lágrimas derramadas por dores distintas.
