Monday, February 12, 2007

As texturas de Babel

Babel, do diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu ("21 Gramas"), é um filme inteligente. Como poucos. Aborda diferentes temas, em locais distintos, de forma extremamente harmônica. Os personagens marroquinos, mexicanos, americanos e japoneses estão longe, muito longe de qualquer estereótipo vulgar. São personagens intensos, enclausurados em seus próprios fardos, ora da imigração ilegal, ora da sexualidade, ora das limitações físicas e das submissões exigidas.

Talvez por ser mexicano e assistir desde sempre sua cultura ser retratada através de cactos, tequila e chapéus de grandes abas pela indústria audiovisual hollywoodiana, Gonzalez tenha desenvolvido sensibilidade madura para respeitar a cultura alheia. Quantos filmes norte americanos, por exemplo, são filmados na Espanha, México, Itália e o idioma local torna-se o inglês com sotaque? É desrespeitoso, quase um insulto à cultura daquele país, mas tornou-se praxe nas pequenas e grandes produções cinematográficas. "Babel" respeita cada cultura através de atores daquele país, que falam os idiomas locais. Parece óbvio, mas requer uma produção demasiadamente mais complexa. O resultado é espetacular.

Espetacular, também, é o roteiro. Dois garotos marroquinos atiram em um ônibus de turismo para testar o riffle que seu pai lhes deu. O tiro acerta Susan, que viajava com seu marido Richard na tentativa de salvar o casamento. A partir da bala perdida, três histórias se montam em quatro países. Os dramas são descontraídos e reconstruídos através da quebra cronológica que permanece durante todo o filme, sendo um dos pontos cruciais para o suspense ininterrupto. A desordem cronológica impede que o espectador se fixe a um personagem e viva os dramas de cada personagem livre de pré-julgamentos.

Além de personagens quase reais, o bonito do filme é a empatia das imagens. Lindas, com muitos planos fechados e cores vivas, movimentos lentos, elas falam de texturas. Pelo toque, nos passam sensações. É quase possível sentir o gosto da comida marroquina ao ver as mãos da família de Youssef manipularem o prato de cuscuz. O braço da babá se enrosca nas costas largas do homem que lhe chama para dançar. O sangue na blusa de Susan e a barba de Richard são texturas que falam mais que palavras. As rugas no rosto da velha que oferece o fumo a Susan e a própria fumaça que se desfaz no quarto são cheiros transmitidos por imagem, são um toque aos olhos. As impressões de "Babel" ficam nas texturas que o filme provoca; no gosto amargo que deixa na boca; na vontade de tocar a pele enrugada, a camisa passada, o sangue seco, a barba para fazer, o vestido vermelho; na aflição que sobra da nudez virgem, na tosse do fumo, na sede no deserto e nas lágrimas derramadas por dores distintas.

Tuesday, February 06, 2007

Chapada Dimantina - Dia 9 e 10

Penúltimo dia de nossa viagem. Tristes e felizes. Aproveitamos a energia poupada para fazermos alguns passeios, a começar pela Gruta da Torrinha. Com nosso guia Zezinho equipado de um lampião, adentramos a caverna por um passeio que nos levaria 2.5 horas.

Zezinho não apenas carregava um sotaque tipicamente baiano, como tinha problemas de dicção, dificultando ou, quase impossibilitando a compreensão de suas explicações. Entendi que ali, naquela gruta, há muitos milhões de anos, passava um rio. O rio secou. O calcário e outros elementos na água provocaram a formação dos estalactites e estalagnites, além de outros tipos de formações raras, como agulhas de gipsita.

Atravessamos galerias gigantes e corredores de tetos tão baixos que era preciso andar abaixado. Vimos grilos e baratas albinas, criaturas típicas daquela escuridão e fomos agraciados com uma formação tão raras que foi a única encontrada em todo o mundo: uma flor de aragonita na ponta de um helictite.

Certamente, aprender os nomes das formações foi um divertimento à parte, ainda mais quando tínhamos que aprender de nosso guia professor Zezinho, com sua terrível dicção. Precisei errar muito e, depois, procurar na internet como realmente se pronunciava cada palavra.

Confesso que logo no início senti uma leve claustrofobia. Em alguns momentos me vinham pensamentos trágicos. Antes de começar o passeio quis saber quantos desabamentos já houvera naquela gruta. Zezinho me certificou que alguns, provavelmente há milhões de anos. Acabei por acreditar no rapaz e adiante seguimos. Felizmente não houve desabamentos enquanto lá estivemos. E como as formações levam cerca de 33 anos para crescer um centímetro e, algumas delas tinham mais de 1 metro, pude acreditar no Zezinho e tranquilizar-me no passeio.

Ao final, Zezinho nos perguntou algo que lutamos para compreender. Precisamos ouvir três vezes para que eu fizesse a associação.

- Você tá perguntando se queremos ver as pinturas rupestres?

E assim terminamos o passeio, vendo as pinturas rupestres no lado de fora da gruta que, acreditam os pesquisadores, podem ter sido feitas por índios, ou, homens da caverna.

O passeio deu fome. Almoçamos à beira da estrada, na entrada para o Poço do Diabo. Comi tanto que cheguei a provocar risos de meu incrédulo namorado. Então, já com a barriga cheia, fizemos a caminhada até o poço do Diabo. Que decepção! Um restaurante na beira do rio exalava cheiro de churrasco. Uma multidão brigava por um lugar na água. Me senti na praia do Leblon em dia de feriado. Saímos correndo dali pelas pedras até encontrarmos uma outra queda d'água, bem mais vazia e aconchegante. Lá ficamos até bater a vontade de voltar.

À noite nos arrumamos para o jantar de revellion. Sentados numa praça da cidade, com muita cerveja e um trio de forró ao vivo, fomos servidos de frango, carne seca, carneiro, palma, godó, arroz, feijão, batata e salada. A contagem regressiva começou e o ano virou. Tão logo cessaram os fogos, fomos dormir.

No dia seguinte, eu queria ir à Cachoeira do Sossego, um passeio de aproximadamente 3 horas. O Pedro achou melhor ficarmos quietos, curtindo o sossego do albergue e esperando que minha tosse melhorasse. Passeamos pela cidade, tentamos almoçar uma picanha (não conseguimos), dormimos, lemos e arrumamos a mala para a volta ao Rio. Que aperto no coração!

Thursday, February 01, 2007

Chapada Diamantina - dia 7 e 8

Ainda estava escuro quando saímos de nossa suíte em lona. O relógio marcava 5:00. Se montar a barraca foi um desafio, guardá-la foi ainda mais complicado. Limpa, desmonta aqui, puxa dali, dobra, desdobra, enrola, tira o ar. Pronto. Não adiantava. A barraca não cabia em seu saco. A jogamos no carro e esquentamos o motor da Toyota.

Nosso destino era um dos maiores atrativos da Chapada Diamantina, a Gruta da Pratinha. Erramos o caminho por falta de sinalização e perdemos muito tempo devido à má conservação da estrada, que nos fez ir atrás de um caminhão de galinhas cerca de 10 km. Este curto trajeto nos levou mais de meia hora.

Já havia sinalizações indicando a entrada para a gruta. Mais alguns quilômetros por estrada de terra e lá estava ela, a Pratinha. A entrada não é barata, custa R$10 por pessoa apenas para o banho. Quem quiser fazer o passeio pela gruta, precisa desembolsar mais R$15,00 por pessoa. A tirolesa sai por R$5,00.

A Pratinha é um rio formado pela água cristalina que vem do lençól freático, saindo de um gruta. A temperatura é ideal para o banho e a profundidade máxima não passa de 2m. Talvez, o que atraia tanta gente seja o fácil acesso. Para chegar à Pratinha não é preciso caminhar mais do que 5 minutos. O local conta, também, com uma infra-estrutura mais elaborada. Há restaurante, quisque e banheiros.

Fomos os primeiros a chegar naquela manhã ensolarada e curtimos o azul cristalino a sós por cerca de 15 minutos. Pequenos peixes famintos beliscavam minha perna. O Pedro saiu ileso ao ataque. Lembrei-me da cantiga que meu avô ensinou a minha mãe: "Eu queria ser um peixe / pra nadar em poço fundo / e morder coxa de moça / que é a mió (sic) coisa do mundo".

Antes que o sol mostrasse sua potência nordestina, a Pratinha encheu-se de crianças com bolas, homens, mulheres e guias. Muitos gritavam de certo encantamento. Chamou-me a atenção como um grupo entrava na água de roupa. Ao sair, tiravam a camiseta. Ao entrar, colocavam-na novamente. Não entendi a tradição.

Uma moleza tomou conta de meu corpo. Mesmo vendo toda aquela beleza, sentia um sono intenso, um desejo incontrolável de deitar-me. E foi o que fiz. Apoiada numa mesa de madeira embaixo de uma amendoeira, encostei minha cabeça em minhas mãos e cochilei. Logo falei que não estava me bem. O Pedro, sem acreditar, brincou ensinuando que era preguiça.

Ao entrarmos no carro, minhas bochechas enrubresceram. Enfim, ao tocar em minha testa, Pedro acreditou que era real. Dei início a uma crise de tosse que se prolongaria pelos próximos 30 dias, sem haver xarope que a curasse. Nossos planos para o dia foram cancelados. Acenamos para o Morro do Pai Inácio e Poço do Diabo, que ficam à beira da estrada no caminho para Lençóis.

Ardendo em febre, chegamos ao Hostel Chapada, no centro de Lençóis, onde tínhamos reserva até o final da viagem. Após um tylenol e muita água, dormi algumas horas e acordei suada. Como é de minha natureza, nada abala meu apetite. Almoçamos um PF não tão bom quanto o da Dona Belli, ainda assim saboroso, no pequeno restaurante de duas mesas ao lado do albergue.

Passei o resto do dia deitada. À noite a febre voltou. Durante a madrugada, dormi pouco, acordando com crises de tosses que devem ter acordado todos do albergue. No dia seguinte, aproveitamos para ler, descansar, comer e dar um passeio pela cidade.