Wednesday, January 24, 2007

Chapada Diamantina - Dia 6

Mais uma madrugada. Eram 5:30 quando deixamos a barraca. Na mochila, o necessário: 3 litros de água, sanduíches, protetor solar e, por via das dúvidas, um casaquinho. Tomamos café na tia ao lado do camping. Com fome, pedi um bolo de cenoura com chocolate, uma vitamina de banana com nescau, um suco de laranha e um sanduiche de queijo com ovo. As porções eram gigantescas e precisei da ajuda do Pedro.

Eu queria ir de carro até a entrada do parque, que nos levaria à Cachoeira da Fumaça. O Pedro não. Ele ganhou e seguimos by feet mesmo. É claro que o caminho era muito mais longe do que nas nossas lembranças e até a chegada do parque já havíamos andado quase dois quilômetros, comendo poeira pela estrada.

A primeira parte da trilha, como nos informou um senhor que levava sua mula para sabe-se lá aonde, seria uma subida de uma hora e, então, andaríamos mais 60 minutos no plano. E assim foi. O céu nos abençoou com um dia nublado e caminhada seguiu num ritmo bem acelerado, apesar de a subida ser bem íngreme.

É muito interessante como as trilhas da Chapada são tão bem marcadas pelas pegadas humanas e animais. São poucas as bifurcações e o caminho tem um traçado natural perfeito, permitindo aos andarilhos seguir com mais tranquilidade ao destino final. Na subida, o chão seco e íngreme formou uma escada natural que não ajuda muito o joelho.

O cume da Cachoeira da Fumaça é estoneante. Do alto de seus 380m a água cai num verde vale que se extende em forma de corredor e segue para além da vista. Como o leito do rio não é forte, em épocas de seca, como era aquela, a queda d'agua é bem fraca e torna-se uma humilde goteira que se perde na altura. Mesmo sem a esperada água, a vista deslumbra.

Na beira do abismo uma pedra se extende, permitindo aos curiosos e corajosos olharem o chão, 400m abaixo. Confesso que de tão alto, fiquei um pouco tonta. O que meus olhos viram não sai em nenhuma fotografia e espero que não saia da memória jamais.

Uma das curiosidades da Cachoeira da Fumaça é a hospitalidade dos animais. Alguns roedores vieram nos cumprimentar com olhos de fome. Enquanto estivemos lá, ficaram nos rodeando, ora se escondendo nas pedras, ora procurando algum sanduiche dando sopa. Os passarinhos eram um pouco mais abusados. Chegavam bem próximos de nós e piavam ao nos ver comer. Contra toda a ética da ecologia, não resisti e dei um pedacinho de pão ao pedinte pássaro. Mas ora, ele chegou bem próximo a minha mão, olhou o pedaço, fez cara de mau e saiu de perto, aos pulinhos. Só agradeceu quando ofereci uma migalha um pouco mais farta. Comeu-a e saiu pulando pelo chão. Ouvi um resmungo, mas acreditei que era coisa da minha cabeça.

Além dos animais selvagens fica no cume o Seu Paulo, responsável por uma lanchonete improvisada, que contava com alguns isopores de sanduiche e sucos naturais e uma placa oferencendo seus serviços. É verdade que corta um pouco do encanto, mas, ouvi dizer que o pastel de jaca era sensacional. Não experimentei.

No cume estava, também, um casal. Guias pelo Centro Excursionista Brasileiro (CEB), os dois conheciam muito bem a Chapada Diamantina, que visitavam duas vezes por ano. Dessa vez, já estavam dentro do parque, acampando e explorando, há 6 dias e ficariam mais alguns. As mochilas cargueiras estavam cheias e o casal repleto de energia se despediu e seguiu adiante.

Nós descemos. A volta, sem a íngreme subida, foi mais rápida e fácil. Em 1h 40min estávamos na estrada. Como reclamei por termos ido à pé! Como ansiei por um carro que me levasse direto para a barraca! Como pareci uma criança mimada! Confesso que só me acalmei depois de tomar banho, chegar ao centro do Vale do Capão (3 minutos à pé do camping) DE CARRO e ver na minha frente o prato do almoço, obviamente acompanhado de uma cerveja gelada.

Monday, January 22, 2007

Chapada diamantina - Dia 5

Descansamos bastante na tarde anterior e queríamos fazer algo bem tranquilo, que não fosse preciso caminhar horas e horas. Após algumas informações mal informadas, seguimos com a Toyota em direção à cachoeira do Riachinho. Deveríamos virar à direita logo depois da segunda ponte, já saindo da vila. Não parecia difícil. Havia uma placa, em uma ponte, indicando "Parque do Riachinho". A entrada, no entanto, ficava à esquerda e, por isso, não paramos.

Chegamos em Rio Grande e nada de entrada à direita. Havíamos passado a entrada e regressamos. A entrada era, de fato, à esquerda e fomos, mais uma vez, mal informados. Uma curta trilha de menos de 10 minutos nos levou à bela cachoeira. Logo, grupos chegaram e o pequena piscina natural logo se encheu.

A água estava muito fria. Demorei um pouco a mergulhar e assim que o fiz me direcionei às pedras, que formavam uma cama com massagem natural. Fiquei deitada alguns segundos até sentir que algo me incomodava no braço. Vi uma pequenina minhoca aquática que se mexia no meu braço. Tirei-a e tornei a deitar nas pedras. As coceiras aumentaram e quando me dei conta havia centenas de minhocas grudadas nos meus braços, pernas, costas, ombro e biquini. O Pedro ainda criava coragem, na outra margem do lago, para entrar na água. Enquanto tirava as melecadas minhocas de meu epiderme pedia socorro. Foi a única forma de faze-lo entrar na água.

Depois do episódio fiquei um pouco receosa de sentar, entrar na água e curtir a cachoeira. Diverti-me mais observando que se algum azarado como eu seria vítima das gosmentas. Até onde pude observar fui, realmente, a única.

Voltamos ainda cedo para o centro da cidade e curtimos algumas garrafas de Skol enquanto esperávamos a hora do almoço. À tarde, mais alguns cochilos na barraca e, à noite, uma pizza no forno à lenha com suco de morango. Um luxo à parte.

Monday, January 15, 2007

Chapada Diamantina - Dia 4

Já não me lembro em que estado encontrava-se a estrada que nos levou de Guiné ao Vale do Capão. Após tantos quilômetros assistindo o asfalto passar por baixo do carro e as árvores correrem pela janela, tudo parece igual. Lembro apenas que, num pequeno povoado de nome Rio Grande, fomos abordados por um rapaz meio hippie, de chapéu largo, cabelos longos e mal cuidados e um bigode muito semelhante aquele usado na época dos impérios e, atualmente, coisa de colecionador de bigode. Nos pediu carona até o vale e mesmo vendo que não havia espaço (retiramos, ainda no Rio, o banco de trás da Bandeirantes para dar espaço para as malas e tralhas, que ocupavam todo o espaço disponível), insistiu com tanta obstinação que o Pedro levantou-se para arrumar o porta-malas. Empilhou de um lado, empurrou do outro, jogou algumas coisas para o meu colo e lá veio o garoto com uma mochila maior do que eu, um amigo e uma outra grande mochila cargueira. Como couberam ali, não sabemos.

Tentamos desenrolar algum diálogo mas, nada do que o nossos companheiros falavam fazia muito sentido para nós. Após alguns "o que?" "desculpa, não entendi", preferi sorrir para qualquer coisa que dissesse. A dica boa ficou para nos mostrar a entrada da trilha para Cachoeira da Fumaça. Contáva-nos sobre sua expedição pelo Vale do Paty e após algumas partes que eu não entendi, perguntei se havia feito a trilha de 3 ou 5 dias e eis que me responde:

- Que nada. Fiquei 15 dias ali, andando de mula. - E desatou numa gargalhada compartilhada por todos do carro.

Conforme nossos amigos do Vale do Paty nos indicaram, fomos à Pousada Sempre Viva que dispunha de um espaço para camping. Mal sabíamos que nosso sagrado sono estava fadado a acabar ali. A pousada era grande e tinha muitas árvores ao redor de pequenos chalés e casinhas. O preço do quarto variava entre R$8,00 a R$10,00 por pessoa. O mais barato dispunha de banheiro coletivo e o outro, individual. O acampamento saia a R$5,00 por pessoa.

Sem muito trabalho, montamos a barraca debaixo de uma grande árvore que nos forneceria sombra durante todo o dia. Dentro coloquei os sacos de dormir, travesseiros, pijamas, água e alguns utensílios necessários.

Já um tanto esfomeados fomos ao centro da cidade procurar algum lugar para comer. Encontramos o restaurante de comida caseira da Dona Belli, que ficava dentro da casa da própria Dona. Junto à televisão e diversos porta-retratos com fotografias dos membros da família ficavam tres mesas repletas de moscas excitadas. O PF custava R$5,00 e vinha com arroz, feijão, salada, farofa, verdura e carne de sol ou frango. Foi, sem dúvida, a mais deliciosa comida de toda a viagem. Tanto que, durante toda nossa hospedagem no Vale do Capão comemos na Dona Belli.

Durante o resto do dia descansamos na barraca, andamos pela cidade e conversamos. A noite, na hora de dormir, começou o drama. Não havia posição confortável naquele chão duro e cheio de pequenas saliências que nos machuvacam as costas, os quadris, os braços. Eu, que tantas vezes acampei e sempre dormi perfeitamente bem, passei a noite acordando a cada nova posição. De manhã, todos os ossos doíam. A cada novo dia o desconforto era maior. Fomos firmes e não cedemos à pousada. Dormimos mal, mas dormimos acampados!

Thursday, January 11, 2007

Chapada Diamantina - Dia 3

Estávamos prontos para o novo desafio. Colocamos todas as malas no carro e pegamos estrada. Dirigimos até Guiné, onde deveríamos procurar pelo guia Zezinho. Após algumas perguntas na praça da cidade encontramos sua casa. Apesar da música alta e do pitbull que não parava de nos fitar, o vizinho avisou que ele havia saído.

- Ele deixa a música ligada pro cachorro não sair.

De volta à praça fomos ao encontro de Edinho, um guia local. Muito solícito nos convidou a entrar em sua casa e nos explicou o trajeto que iríamos percorrer até o Vale do Paty, considerado uma das vistas mais bonitas do Brasil. Edinho, no entanto, não iria conosco, pois era Natal e ele ficaria com sua esposa e seu filho.

Animados com a empreitada passamos no mercadinho mais próximo e compramos os suplementos necessários. Cinco litros de água, biscoito doce, pão, presunto, queijo, miojo, isqueiro e papel higiênico. No carro, preparamos as mochilas cargueiras e, no escaldante sol baiano do meio dia, começamos a caminhada. O carro ficou bem na entrada da trilha. Um privilégio à parte.

Logo fomos ultrapassados por um nativo que carregava um colchão. Como alguns, ele mora no Vale do Paty, onde a única forma de entrada e saída são os pés, ou, as patas de mulas. O sujeito do colchão nos cumprimentou, parou para responder as perguntas dos curiosos turistas e seguiu com seu passo certeiro e sua noite de sono na cabeça. Não demorou para sumir de nossas vistas.

A primeira parte da trilha era íngreme e cheia de pedras. A subida, junto ao calor, nos fazia parar a cada 10 minutos de caminhada para, ao menos, um gole de água. A paisagem que ali surgia já era bela. De acordo com Edinho aquele era um caminho centenário. As marcas de tantos anos de pegadas deixaram a trilha muito bem marca, facilitando nossa direção.

Após a subida íngreme andamos por um bom trecho plano, seguido de subidas e descidas em morros. Cada vez a vista era mais agradável aos olhos. Chegamos ao Rio Preto, onde paramos para almoçar. O Pedro aproveitou a oportunidade solitária para banhar-se no rio, enquanto eu tentava me esquivar das mutucas e devorar meu sanduiche.

A primeira dúvida quanto ao caminho surgiu logo após um muro de pedras. A trilha bifurcava e algo me dizia que deveríamos pegar para a esquerda. Pedro insistiu para seguirmos à direita. Dei o braço a torcer e prosseguimos em ritmo mais acelarado, já que o sol cansou de nos castigar tão ferozmente. Andávamos já calados, um tanto cansados. Comecei a preocupar-me. Pelos meus cálculos, haveríamos de, ao menos, começar a descer o vale e a trilha apontava para um infinito contínuo no horizonte. Resmunguei um pouco até que paramos. Joguei a mochila no chão e adentrei o mato baixo em direção ao vale. Quando chegamos há uns 30 metros e olhamos a nossa volta entendemos porque aquela era uma das mais belas vistas do Brasil.

Pedras e morros desciam vertiginosamente até o chão, onde o tapete verde dos morros mais baixos contrastava com o reflexo do sol nas pedras. Ficamos a admirar. Lá embaixo, muito abaixo, uma pequena casa branca se mostrava no meio do verde. Era ali que deveríamos ir, acreditávamos. Certamente aquela seria a casa do nativo Seu Wilson, onde Edinho nos garantiu que poderíamos pernoitar com tranquilidade. Olhei ao redor e nenhum sinal de trilha. Como poderia ser que deveríamos descer o vale se continuávamos a andar em frente? Teimei que erramos na bifurcação. Pedro, muito certeiro de suas diretrizes, insistiu que seguindo adiante chegaríamos lá.

E assim o fizemos. Seguimos em frente. Eu já um tanto incerta do caminho, resmungava cabisbaixa. O Pedro cortou meu barato com uma bronca que me fez até sorrir. De acordo com ele eu estava entrando em pânico e não havia porquê.

Foi então, para minha felicidade, que vimos a trilha novamente bifurcar. Embora o Pedro insistisse em seguir à direita, eu impus minha vontade e fomos ver para aonde ia a trilha da esquerda. Ah, ela começava a descer o vale! Eu estava certa! E lá fomos nós, já contentes de que logo, logo, chegaríamos a casa do Seu Wilson. Imaginei um bolo, um suco fresco, uma cama confortável. Aí, imaginei os cachorros que poderiam nos atacar. E se não tivesse ninguém na casa? Aonde dormiríamos? Então, a angústia me apossou novamente.

Após mais uma hora de caminhada o Pedro começou a rir. Lá estava ela, agora em tamanho real. Branca e grande. E não era uma, mas algumas casinhas. Cachorro, sim, mas, bem mansinho. De nome Cachorrinha. A casa de Seu Wilson, no entanto, não era aquela. Ficava a uma hora de caminhada "pra lá daquele morro". Ora, quem precisa de Seu Wilson quando se tem o João?

João, também nativo do Vale do Pati, cuida da Ruinha, onde nos encontrávamos. Além da casa branca, havia uma pequena igreja com muitas imagens de santos, velas e adereços, uma casa de barro e outra pequenina, onde dormiríamos. João nos ofereceu um colchão e eu logo pensei que viria com pulgas. Quanto preconceito! A cama preparada no chão estava impecável. Além dela, o quarto contava com um candelabro preso na parede e nada mais.

Em Vale do Paty não há luz elétrica e muito menos telefone. O contato mais perto fica em Guiné, há 12km dali e o único acesso é a trilha centenária. Havia um banheiro com um potente chuveiro de água gelada do rio e um fogão à lenha perfeito para o preparo de nosso jantar. Além de seu João, estava lá uma prima sua de Guiné, que costumava passar as férias ali com cinco de seus seis filhos. Uma das crianças, a mais nova, era portadora de uma deficiência física que a mãe me explicou apenas como "aleijadinha, torta dos pés". Já consciente de sua condição diferente, o menino recusou-se a brincar comigo. Quando pedi que viesse ao meu colo, abriu a boca e chamou por "mainha". Hospedados também na Ruinha estava uma família de soteropolitanos. O pai e seus três filhos (16 - 19 anos) tinham o costume de passar as férias na Chapada. Já estavam no Vale do Paty, explorando a região, há 6 dias. Clara, a filha mais velha, contou-me que não aguentava mais tomar banho frio e lavar o cabelo com sabão de côco.

A noite já caia quando fomos preparar, junto à família de João, nosso jantar. Um macarrão com molho de tomate nos satisfez em grande estilo. Sem muita esperança, perguntei se ali havia cerveja.

- Ter tem. Mas não é gelada. A gente esfria na água.

De um recipiente cheio de água João tirou duas latas de cerveja. Na temperatura ambiente, nenhuma cerveja esteve tão gelada.

Enquanto comíamos, a família de Salvador aguardava seu guia, que vinha de Guiné para leva-los, na manhã seguinte, ao Cachoeirão. Na escuridão do vale vimos surgir, no alto da colina, uma luz. Jau, o guia, desceu o vale em uma velocidade impressionante e em pouco tempo já contava histórias de terror de Ruinha envolta da lareira.

Por volta das 20:00, exaustos, Pedro e eu fomos dormir. É claro que, com minha lanterna, vasculhei todos os cantos do quarto em busca de animais peçonhetos que pudessem ferir minha integridade física. Nada encontrei. Nem mosquito. Às 5:00 levantávamos para seguir viagem. Preparamos miojo para café da manhã, arrumamos nossas mochilas, juntamos nosso lixo, demos adeus e seguimos de volta. Dessa vez, pelo caminho mais curto. Como nos explicou João, erramos na trilha. Após o muro de pedra era à esquerda que deveríamos ter pego. Nos pouparia uma hora de viagem. O caminho por nós percorrido, mais fácil e mais longo, era usado apenas para levar mulas.

Seguindo o caminho mais curto e sem o sol nos castigando, chegamos em Guiné às 9:30. Fizemos um lanche na padaria mais perto e demos adeus.

Wednesday, January 10, 2007

Chapada Diamantina - Dia 2

O dia começava a raiar quando saimos de nosso cafofo e pegamos estrada rumo à Ibicoara, onde chegaríamos à Cachoeira do Buracão. Novamente, preferimos fazer o passeio por conta própria, ao invés de contratar um guia em Mucugê, ou, pagar uma fortuna para uma agência de ecoturismo.

O caminho era longo e Ibicoara ficava bem ao sul da Chapada Diamantina, a quase 80km de Mucugê. Atravessamos o pequeno município de Cascavel e pegamos um longo trecho de estrada de terra, com um visual belíssimo e inspirador.

Ficamos um tanto impressionados ao chegar em Ibicoara. Esperávamos um pequeno vilarejo e encontramos uma cidade maior que Mucugê e muito maior que Cascavel. Como poderia, tão distante da BR e entre vilarejos tão pequenos, formar-se uma cidade de tal tamanho? É verdade que não havia o charme de Mucugê com suas casas coloniais. No entanto, para quem foi de carro para a Chapada Diamantina, como nós, seria mais prático fazer a primeira parada em Ibicoara e desfrutar de seus tantos atrativos naturais. Economizaria muito chão, ao menos.

No centro da cidade contratamos, na Associação de Condutores de Visitantes de Ibicoara, o nosso guia local, Roney. Para entrar no parque é obrigatório a companhia de um guia local. Novamente, uma norma questionável. Se, por um lado, os condutores de visitantes podem ajudar na conscientezação e respeito à natureza, por outro, a obrigatoriedade de sua condução elitiza a prática da atividade, que chega a custar, no preço mais baixo, R$50,00 por dia. Apesar de ser direito de todos conhecer um patrimônio de beleza natural como a Cachoeira do Buracão, não são todos que poderão visitá-la em função de seu alto custo. E claro, se para cada passeio for cobrado uma taxa obrigatória como essa, certamente a atividade torna-se inviável para a grande maioria das pessoas.

Felizmente Roney era extramente agradável e fez questão de nos mostrar os melhores pontos para fotos e banhos ao longo do leito do rio. Sempre repetia sorridentemente que o "paisagismo era lindo" (sic). Ainda nos ofereceu godó (comida típica da região, preparada com banana verde e temperos, que pode ser acompanhada de carne de sol), mas, seria necessário comer com a mão, já que sua esposa esqueceu de lhe dar os talhares. Preferi ficar na curiosidade.

A trilha não é pesada e torna-se muito mais aprazível devido às constantes paradas para admirar o "paisagismo" e tomar banho de rio. Em um determinado momento pudemos vislumbrar de cima da cachoeira os 87m de queda. Caminhamos mais 15 minutos até chegarmos na entrada do canyon. Agora, era preciso colocar os coletes salva-vidas e nadar em direção oposta à força do rio, por entre as paredes de rocha, até a cachoeira. Roney levou nossas câmeras fotográficas e, ao invés de nadar, seguiu pelas pedras, numa "escalaminhada".

Pronto. Nunca vi algo tão lindo. A cachoeira caia de cima de uma parede redonda de canyon cor de terra, mais parecido com uma sala de estar. O resto era água cor de chá mate, que saía da 'sala' e descia por entre o corredor formado pelo canyon e seguia para não sei onde.

De volta à infância. Cobertos de felicidades e êxtase nadávamos na água de temperatura perfeita em direção à cacheira. A queda d'água era tão forte que não podíamos ficar embaixo dela. Nas laterais, pequenas cacheiras eram formadas, com força adequada para seres humanos. Nadar até lá era difícil, já que a força da água fazia uma correnteza que nos puxava na direção oposta.

Roney nos apontou para o local ideal para pulos. Obviamente, enchi o peito e nadei por cinco minutos, até sentir-me exaurida. Após muito sacrifício chegamos próximo à queda e subimos nas pedras. O som era tão alto que mal conseguíamos nos ouvir. Vendo de perto toda aquela potência maestral, digna de uma cachoeira de 87m, fiquei com medo de pular. Senti-me impotante e vulnerável. Após ver o Pedro jogar-se da rocha ao encontro da água e ver nele o sorriso de satisfação, contei até três e atirei-me. A água afastou-me rapidamente com sua correnteza e deixei que me levasse para a margem do lago.

Quase uma hora depois sentíamo-nos prontos para voltar, na certeza de que aquele foi um passeio para sempre. Na volta, ainda desfrutamos de uma queda menor, na qual a força da água havia desenhado uma perfeita maca na pedra onde deitados recebíamos uma massagem muito melhor que qualquer técnica oriental, mediavel, sobrenatural. Massageamos pés, pernas, coluna e cabeça às gargalhadas.

Voltamos os 3km à pé e os 30km até Ibicoara, onde deixamos Roney em sua casa. Como era natal e estávamos mortos de fome, paramos em uma pousada e nos deliciamos com um prato de arroz, macarrão, carne de sol e palma (também prato típico da região, feito de cactos), acompanhado de uma boa cerveja gelada.

Monday, January 08, 2007

Chapada Diamantina - Dia 1

Após doze horas de sono profundo, acordamos às 8:30 da manhã na deliciosa pousada Pé de Serra. Já recuperados do cansaço da viagem, levantamos para um café da manhã inesquecível. Pães, bolos caseiros, sucos de fruta frescos, iogurte caseiro, geléias caseiras, mucunzá, aipim cozido no fogão à lenha, frutas e queijos nos fizeram comer por quase uma hora. Enfim estávamos pronto para nosso primeiro destino: Poço Encantado e Poço Azul.

Solicitamos informções no centro turístico de Mucugê. O rapaz que nos atendeu, atenciosamente, nos deixou bem claro que seria aconselhável contratar guias locais para qualquer passeio. Achei aquilo um tanto estranho, agradeci e saímos para pensar.

Não havia cabimento pagar R$50,00 a diária de um guia local para nos levar a locais tão turísticos, como prometia ser os nossos destinos. Além da diária do guia sairia por nossa conta o carro, combustível, farnel etc. Com um mapa na mão, decidimos ir por conta própria.

Não havia qualquer sinalização na estrada nos indicando a entrada para os poços. Háviamos pego as diretrizes antes e ainda assim passamos a entrada. Ouvimos dizer que acredita-se que são os próprios guias quem retiram as indicações, para que os turistas necessitem de seus serviços (hiperflacionados).

Precisamos parar algumas vezes para pedir informação e enfim chegamos no Poço Encantado. Qual não foi nossa surpresa ao descobrir que havia uma taxa de manutenção de R$5,00 por pessoa para que visitássemos a gruta? Na gruta seríamos guiados por um outro guia. Ou seja, o guia que 'deveríamos' ter contratado seria apenas utilizado para nos guiar na estrada mal sinalizada.

Desencantamentos à parte, o Poço Encantado é de uma beleza rara. Após uma caminhada de 5 a 10 minutos por dentro da gruta, pode-se apreciar a água translúcida da gruta. O banho não é permitido há alguns anos, quando notou-se que a gordura de protetores solar e outros produtos utilizados pelos banhistas poluia a água parada. Mais que certo.

Tomamos uma água de coco em um bar ao lado e voltamos na estrada de barro até o Poço Azul, alguns quilômetros antes. Mais uma taxa de R$6,00 por pessoa cobrada em uma guarita branca. Nesse passeio o banho é permitido é vale à pena. A água do lençol freático é cristalina e vem na temperatura ideal. Tivemos sorte de pegar a gruta vazia, permitindo que curtíssemos aquele pedaço de paraíso sozinhos. Ficamos cerca de 45 minutos na piscina natural, junto a morcegos que aterrorizavam com seus voos razantes. Com o colete salva vidas era impossível afundar na água e fugir dos voadores noturnos. O guia que nos acompanhou ria da carioca medrosa.

Terminamos o passeio com uma cerveja gelada e seguimos, com nosso novo guia de 14 anos, Valnei, para um passeio fora do roteiro convencional. Ele nos levou a um olho d'agua, nos garantindo que era formado pela mesma água do Poço Azul. De fato, o lago era lindo e de água cristalina. Enquanto Pedro mergulhou, eu preferi ficar batendo fotos e molhando apenas os pés.

A noite já caía e voltamos para Mucugê, atravessando os vilarejos que povoam a região. Ao chegar na pousada preparamos cheeseburgers com ovo no fogareiro que levamos. O jantar foi servido à luz de lampião, na varanda de nosso quarto, em um estilo bem romântico e pouco convencional.

Já era tarde e ansiosos para o programa do dia seguinte, Cachoeira do Buracão, fomos dormir.

Friday, January 05, 2007

Chapada Diamantina - pé na estrada

Após quase 8 meses de ansiedade, finalmente chegou, no dia 21 de dezembro de 2006, a hora de colocar o pé na estrada rumo à Chapada Diamantina. Muito agitados e loucos de vontade de chegar o quanto antes, aproveitamos a empolgação para dirigir 15 horas no primeiro dia. Creio que a última hora da viagem tenha sido em busca de um lugar para dormir.

Paramos em um hotel na beira da estrada, na saída de Teófilo Otoni, MG, e quase caímos para trás quando a funcionária nos deu o preço da noite: R$100,00. Sem hesitar ou sequer questionar nosso cansaço, seguimos em frente, otimistas de que, de uma forma ou outra estávamos cada vez mais perto de nosso destino final.

Não podíamos imaginar, contudo, que a partir daquele momento a estrada tornar-se-ia tão deserta! Precisamos de mais 40km até um vilarejo de nome desconhecido. Perguntamos sobre pousadas e nos apontaram vilarejo à dentro. Opa. Parecia ideal. O preço certamente seria melhor. Seguimos a ruela de paralelepípedo até esbarrarmos com a "Pousada da Silva". Nem sequer paramos o carro, apenas demos marcha ré e continuamos na já bastante esburacada e escura estrada.

Foi então que encontramos, uns 30km à frente, a pousada em que pernoitamos. Exaustos, preparamos sopa de saquinho em nosso fogareiro e antes das 22:00 já dormiámos pesadamente. A alegria do bom sono duraria pouco. Por volta das 3:30 da manhã os tantos viajantes que ali pernoitaram, também, já começavam seus preparativos para a estrada e faziam barulho, muito barulho. Irritados, pedimos silêncio em vão.

Às 5:00 da manhã do dia 22 já estávamos aquecendo o motor da Bandeirantes. Éramos um dos últimos hóspedes a deixar a pousada. O café da manhã, servido em uma sala improvisada no escuro, foi o suficiente para nos dar a sustância necessário por algumas horas na estrada.

Por volta das 11:00 da manhã nossos estômagos já pediam um lanche, ou melhor, um almoço no melhor estilo caminhoneiro. Foi quando passávamos a cidade de Anagé, já no sul da Bahia. Logo na entrada havia um posto Texaco e restaurante ao lado. Foi então, prontos para sentarmos e pedirmos um prato de comida, que descobrimos que na Bahia não há horário de verão. A comida só seria servida em 1 hora. Preferimos entrar na cidade e encontrar alguma padaria, onde comeríamos o tradicional misto quente.

Acreditem. Não há misto quente em Anagé. Não há presunto em Anagé.

Desiludida e já faminta, vi meu lado primitivo, da caça e da sobrevivência, virem à tona em uma grande onda de mau humor. Concentrada em devorar os restos de pão com manteiga que levávamos conosco não percebi quando o Pedro parou o carro em frente ao Restaurante do Gauchão. Gauchão, na realidade, faz muito sucesso na Bahia, pois é o nome dado a quase todas as churrascarias de lá. E lá fomos servido pelo próprio Gauchão, um senhor paulista. Comi com demasiado gosto e 30 minutos depois já pegava no sono enquanto o Pedro dirigia.

A última parte da viagem foi, certamente, a pior de todas. Os 25km entre Igatu e Tanhaçu eram de uma estrada altamente precária e destruída. Creio que levamos quase 1 hora para percorrer o trecho. Chegando em Tanhaçu um senhor negro sem dente acenou para nós e, não sei por que cargas d'água nós paramos o carro.

- Mucugê é pra lá - e apontou a direção que devíamos seguir - eles já passaram por aqui e pediram para eu avisar o caminho, avisa lá que falaram comigo. O senhor se despediu e eu agradeci a informação.

Como ele sabia para aonde íamos? E quem eram "eles"? Coisas do sul da Bahia.

Conseguimos chegar em Mucugê no final da tarde e ainda curtimos um pouco da cidade. Exaustos, dirigimos nesses dois dias, 25 horas e percorremos quase 1300km. Passamos por dezenas de cidades, povoados, vilarejos. Sentimos a mudança no clima e vimos o céu ficar mais "baixo" na Bahia. Atravessamos rodovias precárias e sentimos a omissão do governo tanto na miséria que viámos pela janela como no chacoalhar do carro que pulava nos buracos.

Finalmente, Chapada Diamantina. O paraíso era ali.