Uma história de amor
Chegou por email, numa tarde qualquer, o convite para madrinha do casamento. Acontece que fui o cupido, na feia cidade industrial do norte da Inglaterra, Leeds, da meiga carioca-nada-da-gema Fernanda e do rebelde siciliano Marco. Como o conto é incomum, até mesmo pelas particularidades geográficas que o acaso surpreende ao unir, vou prestar o papel não apenas de cupido e, por tanto, dona de um ponto de vista privilegiado, como de narradora desta história de amor entre três países e duas pessoas.
Conheci o noivo, Marco, num dia de inverno em um dos mais populares pubs de Leeds, The Eldon Place, onde os alunos internacionais de todos os continentes reuniam-se às terças para fazer nada além de beber cerveja quente e conhecer outros povos. Lembro-me que era uma noite de neve, pois a Lilian, uma outra brasileira peculiar, ligou do orelhão do bar para sua mãe no Brasil afim de contar-lhe, aos prantos, que estava a ver a neve. E nesse mesmo dia, ao lado do baiano Raony, que por acaso usava um cachecol com as vivas cores da bandeira nacional, Marco nos abordou para comentar algo sobre o dito cachecol. Como não é de se estranhar, apresentou-nos a outro brasileiro, já que há brasileiros por toda a parte. Marco não poupou a garganta, como lhe é de costume, e tentou arduamente obter um bom diálogo conosco. Por ainda não conhece-lo como o conheceria poucos meses a frente achei-o intrometido e logo arrumei uma desculpa qualquer para sair dali.
Não me veria livre do siciliano filósofo tão cedo. Por acaso, morávamos na mesma rua e, por motivos de limitados programas sociais na adolescente cidade de Leeds, nos encontrávamos nas populares house parties, meras festinhas mal organizadas que lotavam as casas dos estudantes, inclusive a minha, e que eram, sem dúvida, o programa mais barato e, por incrível que pareça, o mais divertido da cidade. E entre oi's e ola's começamos a ser amigos. Rapidamente, mudei meu veredito e passava horas rindo de suas histórias, nossas análises fora do comum e nossas invenções mirabolantes.
Esse foi, também, o momento em que comecei a trabalhar no Homarus, o mais badalado bar de salsa e samba de Leeds, talvez por ser o único. Todas as quartas, sextas e sábados passava as tardes e noites preparando drinks como caipirinhas, margueritas, B52 e outros que eu mesma inventava contra as ordens expressas do gerente. O Marco também trabalhava no bar, mas do Bibi's, o mais chique restaurente da cidade, para onde iam as 'celebridades' de Leeds. Após as 23:00, quando seu turno acabava, Marco se juntava ao povo do Bibi's e seguia para o Homarus, onde terminavam a noite com muitas cervejas. Entre um cliente e outro, batíamos um papo e nos atualizávamos sobre as mais célebres fofocas leedianas.
O Marco subiu na vida rapidamente e da casa de estudante mudou-se para um moderno apartamento no centro da cidade. Por acaso, no mesmo prédio onde Fernanda e sua família se mudariam em poucos meses. Eu, acostumada com as modestas casas de estudantes, não perdia tempo para sentar-me no sofá de couro da nova casa do Marco e comer o tomate seco de sua vó, trazido especialmente por seus pais em uma visita. Havia televisão de tela plana (é provável que eu esteja fantasiando essa parte, mas ela era grande), aparelho de DVD e panelas inox.
O Morrisons é o Mundial de Leeds. É um supermercado que merece destaque, não apenas pelos preços baixos mas, pelo selo Betta Buy, cujos produtos, da mais extensa ordem, são todos envoltos na mesma embalagem vermelha e branca. Qualquer coisa que precise, do leite ao cotonete, encontrará na marca Betta Buy por 1/3 do preço. Não que a qualidade seja boa. O papel higiênico, por exemplo, é do tipo ralacú, a carne de 3a e o azeite é quase vinagre. Betta Buy era marca garantida em qualquer despensa estudantil. Foi no Morrisons, enchendo meu carrinho de produtos Betta Buy, que esbarrei com a Susanna, uma italiana que como qualquer outro personagem deste conto, é muito peculiar. Susanna havia morado na minha casa antes de me mudar, mais precisamente, eu ocupava seu antigo quarto. Mudou-se para outro alojamento por razões que ninguém soube explicar, nem ela mesmo, apesar de demonstrar arrependimento profundo através de suas constantes visitas e limpezas voluntárias na cozinha. Ao ver-me empurrando o carrinho, Susanna saltou de alegria e apresentou-me a menina ao seu lado, Fernanda, uma brasileira que acabara de chegar em Leeds. Após cordiais cumprimentos descobrimos que éramos da mesma cidade no Brasil, do mesmo bairro e da mesma universidade. Tínhamos amigos e conhecidos em comum desde nossos primeiros anos de vida e jamais havíamos nos visto.
Passamos a nos encontrar na universidade para almoços, cafés, bate papos e fofocas típicas do universo feminino que dispensam minuciosidades. Ainda em processo de mudança, visto, passaporte e algumas burocracias que já não estão claras na minha mente, Fernanda voltou ao Brasil e trouxe uma mala de tralhas minhas, como um favor daqueles que não têm preço. Nesse meio tempo, decidi aventurar-me em um trabalho de peão no sul da Inglaterra, em uma companhia de tratamento de grãos, onde sofri e ganhei muito dinheiro em oito semanas. Antes de ir, deixei boa parte de minhas bugingangas estocadas no armário da sala da casa do Marco, algumas coisas com a Fernanda e o resto com outros solidários.
Em outubro, quando regressei de Oxford e a rotina se instalou novamente, voltei às festas e vinhos na casa do Marco. Após algumas taças de um Merlot qualquer (com toda sinceridade, não recordo-me com exatidão qual a uva do vinho, apenas quero supor que tenha sido um Merlot porque gosto de Merlot como gosto de qualquer outro vinho) na casa do Marco, lembrei-me meio aos meus devaneios, que havia uma brasileira que morava naquele prédio e que poderia sair conosco para o North Bar. Liguei e logo ela desceu. Apresentei-os sem premeditar o futuro.
O Marco estava com um projeto de filme, que nasceu de um sonho surrealista. As filmagens deveriam começar logo. A Fernanda editaria as cenas, como ficou rapidamente combinado. Foi o motivo que faltava para o destino terminar seu trabalho e eu poder voltar para o Brasil com missão cumprida. Sobre o beijo, não me pergunte, eu já havia saído. Eles terminaram o filme, fizeram muita ponte aéra, falaram pelo Skype até cansar, o Marco terminou sua segunda formação em Psicologia e a Fernanda, sua segunda em Projeto de Produto. Ela foi, ele veio, ela veio e ele foi. Ele pediu, ela aceitou e hoje estão casados, com um novo apartamento para decorar na Inglaterra.
O destino poderia ter lhes reservado um encontro no elevador do prédio, mas, optou por usar-me como cupido, afinal, elevadores não contam histórias.
Conheci o noivo, Marco, num dia de inverno em um dos mais populares pubs de Leeds, The Eldon Place, onde os alunos internacionais de todos os continentes reuniam-se às terças para fazer nada além de beber cerveja quente e conhecer outros povos. Lembro-me que era uma noite de neve, pois a Lilian, uma outra brasileira peculiar, ligou do orelhão do bar para sua mãe no Brasil afim de contar-lhe, aos prantos, que estava a ver a neve. E nesse mesmo dia, ao lado do baiano Raony, que por acaso usava um cachecol com as vivas cores da bandeira nacional, Marco nos abordou para comentar algo sobre o dito cachecol. Como não é de se estranhar, apresentou-nos a outro brasileiro, já que há brasileiros por toda a parte. Marco não poupou a garganta, como lhe é de costume, e tentou arduamente obter um bom diálogo conosco. Por ainda não conhece-lo como o conheceria poucos meses a frente achei-o intrometido e logo arrumei uma desculpa qualquer para sair dali.
Não me veria livre do siciliano filósofo tão cedo. Por acaso, morávamos na mesma rua e, por motivos de limitados programas sociais na adolescente cidade de Leeds, nos encontrávamos nas populares house parties, meras festinhas mal organizadas que lotavam as casas dos estudantes, inclusive a minha, e que eram, sem dúvida, o programa mais barato e, por incrível que pareça, o mais divertido da cidade. E entre oi's e ola's começamos a ser amigos. Rapidamente, mudei meu veredito e passava horas rindo de suas histórias, nossas análises fora do comum e nossas invenções mirabolantes.
Esse foi, também, o momento em que comecei a trabalhar no Homarus, o mais badalado bar de salsa e samba de Leeds, talvez por ser o único. Todas as quartas, sextas e sábados passava as tardes e noites preparando drinks como caipirinhas, margueritas, B52 e outros que eu mesma inventava contra as ordens expressas do gerente. O Marco também trabalhava no bar, mas do Bibi's, o mais chique restaurente da cidade, para onde iam as 'celebridades' de Leeds. Após as 23:00, quando seu turno acabava, Marco se juntava ao povo do Bibi's e seguia para o Homarus, onde terminavam a noite com muitas cervejas. Entre um cliente e outro, batíamos um papo e nos atualizávamos sobre as mais célebres fofocas leedianas.
O Marco subiu na vida rapidamente e da casa de estudante mudou-se para um moderno apartamento no centro da cidade. Por acaso, no mesmo prédio onde Fernanda e sua família se mudariam em poucos meses. Eu, acostumada com as modestas casas de estudantes, não perdia tempo para sentar-me no sofá de couro da nova casa do Marco e comer o tomate seco de sua vó, trazido especialmente por seus pais em uma visita. Havia televisão de tela plana (é provável que eu esteja fantasiando essa parte, mas ela era grande), aparelho de DVD e panelas inox.
O Morrisons é o Mundial de Leeds. É um supermercado que merece destaque, não apenas pelos preços baixos mas, pelo selo Betta Buy, cujos produtos, da mais extensa ordem, são todos envoltos na mesma embalagem vermelha e branca. Qualquer coisa que precise, do leite ao cotonete, encontrará na marca Betta Buy por 1/3 do preço. Não que a qualidade seja boa. O papel higiênico, por exemplo, é do tipo ralacú, a carne de 3a e o azeite é quase vinagre. Betta Buy era marca garantida em qualquer despensa estudantil. Foi no Morrisons, enchendo meu carrinho de produtos Betta Buy, que esbarrei com a Susanna, uma italiana que como qualquer outro personagem deste conto, é muito peculiar. Susanna havia morado na minha casa antes de me mudar, mais precisamente, eu ocupava seu antigo quarto. Mudou-se para outro alojamento por razões que ninguém soube explicar, nem ela mesmo, apesar de demonstrar arrependimento profundo através de suas constantes visitas e limpezas voluntárias na cozinha. Ao ver-me empurrando o carrinho, Susanna saltou de alegria e apresentou-me a menina ao seu lado, Fernanda, uma brasileira que acabara de chegar em Leeds. Após cordiais cumprimentos descobrimos que éramos da mesma cidade no Brasil, do mesmo bairro e da mesma universidade. Tínhamos amigos e conhecidos em comum desde nossos primeiros anos de vida e jamais havíamos nos visto.
Passamos a nos encontrar na universidade para almoços, cafés, bate papos e fofocas típicas do universo feminino que dispensam minuciosidades. Ainda em processo de mudança, visto, passaporte e algumas burocracias que já não estão claras na minha mente, Fernanda voltou ao Brasil e trouxe uma mala de tralhas minhas, como um favor daqueles que não têm preço. Nesse meio tempo, decidi aventurar-me em um trabalho de peão no sul da Inglaterra, em uma companhia de tratamento de grãos, onde sofri e ganhei muito dinheiro em oito semanas. Antes de ir, deixei boa parte de minhas bugingangas estocadas no armário da sala da casa do Marco, algumas coisas com a Fernanda e o resto com outros solidários.
Em outubro, quando regressei de Oxford e a rotina se instalou novamente, voltei às festas e vinhos na casa do Marco. Após algumas taças de um Merlot qualquer (com toda sinceridade, não recordo-me com exatidão qual a uva do vinho, apenas quero supor que tenha sido um Merlot porque gosto de Merlot como gosto de qualquer outro vinho) na casa do Marco, lembrei-me meio aos meus devaneios, que havia uma brasileira que morava naquele prédio e que poderia sair conosco para o North Bar. Liguei e logo ela desceu. Apresentei-os sem premeditar o futuro.
O Marco estava com um projeto de filme, que nasceu de um sonho surrealista. As filmagens deveriam começar logo. A Fernanda editaria as cenas, como ficou rapidamente combinado. Foi o motivo que faltava para o destino terminar seu trabalho e eu poder voltar para o Brasil com missão cumprida. Sobre o beijo, não me pergunte, eu já havia saído. Eles terminaram o filme, fizeram muita ponte aéra, falaram pelo Skype até cansar, o Marco terminou sua segunda formação em Psicologia e a Fernanda, sua segunda em Projeto de Produto. Ela foi, ele veio, ela veio e ele foi. Ele pediu, ela aceitou e hoje estão casados, com um novo apartamento para decorar na Inglaterra.
O destino poderia ter lhes reservado um encontro no elevador do prédio, mas, optou por usar-me como cupido, afinal, elevadores não contam histórias.

2 Comments:
o famoso terrorista de plantao
tem 2meses que nao entro neste bolg.que isso:neura total.vc e louca.rsrsfuiiiiii
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