(para relembrar a repetição)
Sobrevôo a Terra dentro de uma espaçonave. Uma visão panorâmica me permite acompanhar os acontecimentos mundiais. A água cá de cima é tão azul! Os continentes e ilhas aparentam uma serena calma. Nuvens brancas circulam pelo céu. Pena não haver uma Bossa Nova de Tom para acompanhar-me nesse camarote de imagens.
Basta olhar com atenção e o cenário se distorce. As águas não são azuis e os continentes não são tão serenos. O que vejo é um grande paradoxo. Esfrego os olhos acreditando ter sido isso uma dilatação ocasional de minhas pupilas. Em vão. O cenário é esse mesmo: contraditório, assustador, poético, trágico e patético.
Um grupo de negros reunidos em círculo assiste à castração de uma menina. Eles celebram a frigidez futura de uma criança que chora copiosamente. Enquanto isso, uma mulher é apedrejada por traição. No outro canto do mundo, refinadas moças tomam café. Subalternas lhes pintam de vermelho os dedos das mãos e pés. Vermelho sangue.
Em terras sagradas pessoas morrem em nome da Fé. Morrem em nome de uma Política que já se perdeu em seu próprio sangue. Idealismos capitalizados, sede de poder e vitória arruínam, junto a corpos, o santificado.
Países ainda invadem países por uma falsa democracia. Derrubam ditadores gritando que o mundo será melhor. Na realidade, temem os terroristas, que mais uma vez podem destruir seus arranha-céus. Temem perder o poder dos poderosos, o gosto da soberania. Armas nucleares não mais protegem. Civis morrem nesse emblema político da luta pelo petróleo. Soldados já não sabem pelo que matam. Agora é tarde. Salve-se quem puder!
Salvam-se. Muitos que não sabem. Consomem comidas, roupas, carros e eletrodomésticos. Aglomerados de lojas são parques-de-diversão para adultos. Todos sorriem - mesmo que sejam falsos os sorrisos. Um grande rato acena “olá” diante de castelos, chafarizes, lagos e jardins floridos. Não, não é miragem, é o Mickey Mouse.
No coração do mundo o verde se vai gradativamente. Indivíduos que hei de chamar seres (não) humanos não sabem que os pássaros choram, as cobras se apavoram, os jacarés se escondem, as tarântulas procuram abrigo seguro. Se não entendem seu próprio dialeto, como hão de compreender a fala dos bichos? Tampouco importa. Tudo é lucro rápido, fácil e muito divertido.
Não longe dali, aglomerados de casas de tijolo se amontoam numa cidade maravilhosa. Daqui de cima é bonita a invasão dessa moderna arquitetura batendo de frente com imponentes mansões. Cometas por toda a cidade embelezam tanto o cenário que alguns se jogam no chão para melhor apreciar o espetáculo bélico.
Por todo o canto do mundo vejo sexo. Violentos, apaixonados e selvagens, os que mais me hipnotizam são os forçados. E eles estão por toda a parte; nas ruas, clubes noturnos, casas e igrejas. Meninas, mulheres e senhoras recebem pouco, outras vezes muito, dinheiro em troca de sua libido. Brancos com negras, amarelas com mulatos, negros com negras, brancos com brancos. Meu Deus! Moleque com galinha? Filha com pai?
No plenário de uma cidade não muito importante, em um país não muito importante, pingüins, leões, gatos, veados e muitos, muitos bichos-preguiça fingem que tomam decisões. Eles não mentem bem. Uma hiena qualquer, vestida de amarelo, dança sem constrangimento no meio da fauna nacional. O circo parece pegar fogo mas, ao final da sessão, abraços, apertos de mãos e sorrisos entre os mais distintos animais. Curioso.
Olho de um lado para o outro.
Encontrei, no alto de um morro, pontos brancos, pernas cruzadas, mãos nos joelhos. Acho que rezam. São todos iguais, carecas, magros, amarelos e descalços. Segurando o riso em sinal de respeito, direciono meu olhar para outro lado. Pontos vermelhos e azuis e amarelos sobem, muito lentamente, uma alta montanha branca. Uma corda une um ao outro, outro a um. O destino parece patético: um cume estreito, com pouca visibilidade devido às nuvens que circundam a montanha.
Movimentadas capitais anunciam a possível presença de bombas. Uma mala vazia aterroriza o metrô de uma importante cidade na hora de maior movimento. Ninguém tenta conter o caos. Correria e pisoteamento provam o egoísmo humano; sua vida acima de todas as outras. Na mala, uma muda de roupas limpas, uma cueca suja e alguns cotonetes. Ninguém se atreveu a cheirar a cueca.
Enquanto líderes vendem seus peixes eleitorais para sua população, crianças expõem suas enormes barrigas de verme seguras por um par de tortos gravetos. Seres humanos se apunhalam por um saco de arroz. Filas intermináveis nos hospitais matam por falta de atendimento. Casas desmoronam nos vendavais e nas mais ralas chuvas. A ignorância aumenta, o desespero cresce e todos se alienam.
Beleza. Pura beleza.
Agora cansei. Vou trocar de canal. Como estará Marte nesse momento?