Monday, November 27, 2006

Amantes constantes. Difícil

Amantes constantes, do diretor francês Phillippe Garrel é, antes de tudo, um filme diferente do que se tem visto nos últimos tempos. Ainda não decidi se gostei. Mas, para os amantes da grande tela, certamente vale à pena.

O pano de fundo para o romance de um jovem casal revolucionário foi a guerrilha urbana estudantil que tomou conta de Paris em maio de 68. Frustados pela derrota e por não conseguirem o apoio dos proletariados e camponeses, um grupo de estudantes vive na casa de Antonie, um rapaz rico que herdou a fortuna de seu pai e passa seus dias fumando ópio. Os amigos o acompanham nos intorpecentes e na decadência da juventude, que perde o sentido de suas lutas.

O filme é em preto e branco e sua fotografia, feita com demasiada cautela, é simplesmente bela. Os planos lentos permitem que se admire o contraste da cor e da ausência de cor com cuidado. Há planos tão extensos que mais parecem uma fotografia still. O diretor trabalhou extensivamente closes de seus personagens, permitindo ao telespectador observar os detalhes da luz, dos olhares e, assim, entrar na busca perdida dos personagens.

Amantes constantes tem quase 3 horas de duração. A sensação, contudo, é de muito mais tempo sentado na cadeira do cinema, já que não estamos acostumados esse ritmo. Muitos não aguentam.Foi grande o número de pessoas que saiu do cinema durante a sessão. Não os culpo. Não é um filme fácil. Mas, certamente, é belo.

Quando pensamos em cenas de guerra, logo surge em nossas mentes uma edição ágil, fogos, explosões, filmes a lá Spielberg, como "Soldado Ryan", ou "Platoon", de Oliver Stone. Não. Phillippe Garrel fez da guerra uma poesia estética. Há longos tilts, pans e contínuas seqüências de seus protagonistas parados, esperando sem a comum expressão de exaustão. É uma nova linguagem, ou, um resgate de uma linguagem que há algum tempo não surgia nas grandes telas.

O que deixa a desejar é a legenda. De cor branca, ela se torna ilegível em muitos momentos do filme. Para quem não sabe francês, a perda afetará a compreensão geral do filme. Aqueles que forem assistir, vai a dica: não deixe de ir no banheiro antes e comprar comes e bebes. No mais, aproveite e curtam as imagens.

Tuesday, November 21, 2006

Inspiração. Criança mal-criada

Não me conformo com essa tal de Inspiração. Ontem, deitada na cama, já na madrugada abafada desse Rio de Janeiro, ela chegou e jogou pro alto meus lençóis, sacudiu meus pés e puxou meu travesseiro. As frases vinham feito as águas do Iguaçú, aos montes. E eu permanecia deitada, ouvindo o burburinho da Inspiração. Cogitei acender a luz e colocar no papel aquilo tudo. Mudei de idéia. Não apenas pela preguiça que, de fato, era grande. Também por saber que, no momento que meu corpo começasse a se movimentar, ela desapareceria.

Resultado, hoje, após minha tranqüila noite de sono, não me lembro de absolutamente nada que me disse a Inspiração. Nada. Nem uma única frase. Nem a idéia central. Necas. Assim como veio, se foi. Nessa brincadeira de Inspiração em momentos impróprios é que se perdem as grandes sacadas da humanidade.

Tem que ter alguma explicação. Na reunião chata de trabalho, o olho mexe prum lado, a cadeira vira um pra direita, pra esquerda e de repente, algo desperta a atenção. E lá vem ela, sorrateira, toda contente, jogando idéias brilhantes, frases feitas, inteligentes, aquelas sacadas ótimas. E eu, lutando, tentando tirá-la dali. Sai, vai embora Inspiração, agora não. Volta daqui a pouco. Me encontra lá fora. Não adianta. Ela impreguina até o constrangimento de ser pega em devaneio. Final da reunião. Para onde ela foi? Ninguém sabe, ninguém viu.

Os mais experientes aconselham o caderninho e a caneta sempre à mão. Isso falam os escritores, os músicos, os diretores, os publicitários e todos aqueles que penam para não perde-la. Preciso admitir que nunca segui o conselho à risca. Às vezes, vou à papelaria, escolho um caderno cuja capa me remete à Inspiração, junto a ele uma caneta BIC e jogo o novo kit na sacola de inutilidades femininas. Inútil. Basta trocar de bolsa que o caderno fica na outra e logo se perde nas montanhas de papéis que entulho nas gavetas de casa.

Se a Inspiração fosse gente, a minha seria uma daquelas meninas bem tagarelas e sapecas, de tranças loiras dividindo o cabelo em dois. Sapatos boneca pretos e vestidinho azul de bordado branco. Sorridente. Acho que ela pode ser banguela. Com certeza, estaria naquela idade agitada, que tanto distanciam os adultos das crianças. Aquela agitação típica, que faz qualquer adolescente se sentir um ancião. E não pense que é uma criança carinhosa, não. É dessas bem mal criadas, que você pede silêncio e ela fala, inconvenientemente, na frente de quem quer que seja. Você pede pra repetir e ela sai correndo, desobedientemente, sem nem olhar para trás. Te acorda aos gritos, some quando você mais precisa.

Detesto esse papo de que um bom texto precisa de 1% de Inspiração e 99% de transpiração. Se não fosse aquele sinal inicial de nada adiantaria toda a sudorese posterior. Inspiração, quando chega em boa hora, é quase como receber um santo. A pessoa, ou o médium, datilografa totalmente distante do mundo que o cerca, imune aos sons, cheiros e pessoas. Depois, vem a parte chata. Editar, corrigir, procurar os erros, consertar, repuxar, retocar. Detalhes imprescindíveis e dependentes daquele impulso inicial.

Eu queria encontro com hora marcada. Todos os dias, às 9:30 ela vem. Fica até a pausa para o café, come uma bolacha e volta ao serviço. Também estou aberta a horários mais flexíveis, que se encaixe à rotina da Inspiração mais comodamente. Não assino carteira, mas, dou benefícios. A colocaria sempre nos agradecimentos, que poderia, também, ser escrito por ela própria. Pode me acompanhar, tudo por minha conta, ao cinema, teatro, passeios na praia e viagens de lazer.

A proposta está feita. Aguardo retorno.

Tuesday, November 14, 2006

Merthiolate não arde

Quem teve a idéia de mudar a fórmula do Merthiolate? Agora, perdeu a graça. Ele não arde mais. Masoquismo? Pode ser. A ardência é a graça, o charme, o mimo, o sopro da mãe no joelho machucado. Passar Merthiolate ficou fácil demais, nem sentimos mais a dor da cura. Banalizou. Não compro mais. Vou passar iodo nos meus filhos, quando tive-los.

Na infância, brincávamos de correr na estrada de barro, lá no sítio. Deixar a bicicleta me levar ladeira abaixo naquela rua esburacada, enquanto meus pés descansavam no guidão e o vento batia em meu rosto. Claro que, muitas vezes, perdia o controle e encontrava-me com o chão. Chorando chegava ao colo de minha mãe ou de meu pai e esperava os cuidados e curativos com certo temor.

Limpavam-me os ferimentos com água, secavam com gaze e com uma pequena repreensão: "Mas, por que você foi fazer isso?" E eu, cheia de culpa, gostava do contrasenso - talvez já antecipasse a saudade que sentiria desses anos. Via minha mãe levantar-se e mexer no ármario espelhado do banheiro. Na mão, trazia Merthiolate e então começava a guerra.

Não! Não quero Merthiolate! É preciso. Senão infecciona. Vai, me dá o braço. E eu o segurava com força enquanto da boca saiam os gritos da dor ainda por vir. Às vezes, era preciso estar mãe e pai ao meu lado, acalmando-me enquanto eu buscava a coragem para deixar que passassem o Merthiolate. Não lembro se, de fato, a dor era tanta ou se parte disso era a carência imensurável que sempre tive. A verdade é que eu gostava de ter minha mãe e meu pai ali, cuidando de meus pequenos e insignificantes ferimentos. Sempre exigi o tal sopro depois. Pai, você sopra? Mãe, jura que você vai soprar?

Eles sempre sopraram. Nunca deixaram de assoprar meus machucados quando passavam Merthiolate. O sopro acalmava e em alguns segundos parava de arder. Eu sabia que os bichinhos morriam e que, logo, logo, o ralado em meu braço ganharia uma casquinha. A dor era inevitável e o sofrimento, um charme à parte.

E agora? O que farão as crianças sem o ardor do Merthiolate? Sem os pais que assoprem seus machucados e sem a certeza de que os micróbios estão realmente mortos?

Cinema - Os infiltrados- just too much

Não me sinto capacitada a fazer uma crítica contundente sobre Martin Scorsese. Fica, então, apenas a dica: não deixem de assistir "Os infiltrados". É 100% Scorsese, uma violência inteligente, sarcástica, irônica e envolvente. Planos de filmagem originalíssimos, trilha sonora nota 10, edição ritmada e ágil e diálogo delirante. Muito sangue, muita ação, muito, muito bom.

Monday, November 06, 2006

Pequena Miss Sunshine

Ouvi por aí que o filme era bom. Uma comentou que a "garotinha é toda pançudinha, muito fofa". Outras, imitavam algo como um tigre, arranhando o vento e criando caretas que oscilavam entre uma mulher sexy e um animal distinto enquanto caíam na gargalhada. Aquilo bastou para me despertar a curiosidade e na primeira oportunidade sentei-me na cadeira do cinema esperando "Pequena Miss Sunshine".

Rimos de coisas que nos deixam desconfortáveis. Ver o outro cair é constrangedor. Tão constrangedor que damos risadas. Algo que nos une: a possibilidade de desabar na rua e a preferência de assistir o outro. Não escolhemos a hora do tropeço, assim como não escolhemos nossos pais, irmãos e avós.

A família da pequena Miss Sunshine, ou, de Olive, é tão constrangedora que provoca risos de alívio. Estou do outro lado da tela. Todos os personagens são caricaturados e, mesmo assim, funcionam como uma dura crítica à nós mesmos. O pai, o perdedor que esconde seu fracasso atrás de nove passos para o sucesso. O tio gay inteligente que se enxerga perdedor e tenta suicídio. O avô tarado, viciado em drogas e deliberadamente inconsequente. O irmão mais velho é um rebelde com causas que fala através de seu silêncio absoluto e funciona como catalisador de toda a situação absurda. Já a mãe, demonstra uma total falta de controle de sua família e se perde nas tentativas de uni-los. E no meio dessa salada, a Pequena vem autêntica, sendo "just Olive", uma barrigudinha de óculos que sonha em se tornar a Miss Sunshine.

Se não podemos escolher nossos parente, resta-nos aceitá-los. Olive faz isso com maestria. Abraça o irmão ao invez de lhe pedir, pergunta pro tio porque ele tentou se matar e dialoga com o avô como ninguém é capaz. E como isso é constragendor! Lá se vão mais risadas na cadeira confortável do cinema (o cinema envolve, mas nos mantem no lugar seguro, onde aquilo que se vê não afeta a vida).

A irreverência da menina encabula. Não é fácil aceitar os outros, cheios de defeitos caricaturados, exagerados e estigmatizados. Mas, a Olive dá um show. E que show. Arrasa com o concurso fazendo coisas que apenas seu avô seria capaz de fazer, e claro, foi quem a ensinou. Que alívio ao ler "The End". Acabou a tortura e o bem venceu mais uma vez. E não tenha dúvidas, você sairá do cinema imitando certos passos.

Thursday, November 02, 2006

REFLEXO DA TERRA - de um alienígena inconformado

(para relembrar a repetição)

Sobrevôo a Terra dentro de uma espaçonave. Uma visão panorâmica me permite acompanhar os acontecimentos mundiais. A água cá de cima é tão azul! Os continentes e ilhas aparentam uma serena calma. Nuvens brancas circulam pelo céu. Pena não haver uma Bossa Nova de Tom para acompanhar-me nesse camarote de imagens.

Basta olhar com atenção e o cenário se distorce. As águas não são azuis e os continentes não são tão serenos. O que vejo é um grande paradoxo. Esfrego os olhos acreditando ter sido isso uma dilatação ocasional de minhas pupilas. Em vão. O cenário é esse mesmo: contraditório, assustador, poético, trágico e patético.

Um grupo de negros reunidos em círculo assiste à castração de uma menina. Eles celebram a frigidez futura de uma criança que chora copiosamente. Enquanto isso, uma mulher é apedrejada por traição. No outro canto do mundo, refinadas moças tomam café. Subalternas lhes pintam de vermelho os dedos das mãos e pés. Vermelho sangue.

Em terras sagradas pessoas morrem em nome da Fé. Morrem em nome de uma Política que já se perdeu em seu próprio sangue. Idealismos capitalizados, sede de poder e vitória arruínam, junto a corpos, o santificado.

Países ainda invadem países por uma falsa democracia. Derrubam ditadores gritando que o mundo será melhor. Na realidade, temem os terroristas, que mais uma vez podem destruir seus arranha-céus. Temem perder o poder dos poderosos, o gosto da soberania. Armas nucleares não mais protegem. Civis morrem nesse emblema político da luta pelo petróleo. Soldados já não sabem pelo que matam. Agora é tarde. Salve-se quem puder!

Salvam-se. Muitos que não sabem. Consomem comidas, roupas, carros e eletrodomésticos. Aglomerados de lojas são parques-de-diversão para adultos. Todos sorriem - mesmo que sejam falsos os sorrisos. Um grande rato acena “olá” diante de castelos, chafarizes, lagos e jardins floridos. Não, não é miragem, é o Mickey Mouse.

No coração do mundo o verde se vai gradativamente. Indivíduos que hei de chamar seres (não) humanos não sabem que os pássaros choram, as cobras se apavoram, os jacarés se escondem, as tarântulas procuram abrigo seguro. Se não entendem seu próprio dialeto, como hão de compreender a fala dos bichos? Tampouco importa. Tudo é lucro rápido, fácil e muito divertido.
Não longe dali, aglomerados de casas de tijolo se amontoam numa cidade maravilhosa. Daqui de cima é bonita a invasão dessa moderna arquitetura batendo de frente com imponentes mansões. Cometas por toda a cidade embelezam tanto o cenário que alguns se jogam no chão para melhor apreciar o espetáculo bélico.

Por todo o canto do mundo vejo sexo. Violentos, apaixonados e selvagens, os que mais me hipnotizam são os forçados. E eles estão por toda a parte; nas ruas, clubes noturnos, casas e igrejas. Meninas, mulheres e senhoras recebem pouco, outras vezes muito, dinheiro em troca de sua libido. Brancos com negras, amarelas com mulatos, negros com negras, brancos com brancos. Meu Deus! Moleque com galinha? Filha com pai?

No plenário de uma cidade não muito importante, em um país não muito importante, pingüins, leões, gatos, veados e muitos, muitos bichos-preguiça fingem que tomam decisões. Eles não mentem bem. Uma hiena qualquer, vestida de amarelo, dança sem constrangimento no meio da fauna nacional. O circo parece pegar fogo mas, ao final da sessão, abraços, apertos de mãos e sorrisos entre os mais distintos animais. Curioso.

Olho de um lado para o outro.
Encontrei, no alto de um morro, pontos brancos, pernas cruzadas, mãos nos joelhos. Acho que rezam. São todos iguais, carecas, magros, amarelos e descalços. Segurando o riso em sinal de respeito, direciono meu olhar para outro lado. Pontos vermelhos e azuis e amarelos sobem, muito lentamente, uma alta montanha branca. Uma corda une um ao outro, outro a um. O destino parece patético: um cume estreito, com pouca visibilidade devido às nuvens que circundam a montanha.

Movimentadas capitais anunciam a possível presença de bombas. Uma mala vazia aterroriza o metrô de uma importante cidade na hora de maior movimento. Ninguém tenta conter o caos. Correria e pisoteamento provam o egoísmo humano; sua vida acima de todas as outras. Na mala, uma muda de roupas limpas, uma cueca suja e alguns cotonetes. Ninguém se atreveu a cheirar a cueca.

Enquanto líderes vendem seus peixes eleitorais para sua população, crianças expõem suas enormes barrigas de verme seguras por um par de tortos gravetos. Seres humanos se apunhalam por um saco de arroz. Filas intermináveis nos hospitais matam por falta de atendimento. Casas desmoronam nos vendavais e nas mais ralas chuvas. A ignorância aumenta, o desespero cresce e todos se alienam.

Beleza. Pura beleza.
Agora cansei. Vou trocar de canal. Como estará Marte nesse momento?