Saturday, October 28, 2006

Cume do Garrafão, uma das mais belas vistas.

Lembranças de um final de semana.

Durante todo o dia procurei palavras que fizessem jus ao cume do Garrafão. Em vão. Não as encontrei. Esbarraram por mim somente sinônimos incapazes de expressar com veracidade e autenticidade a sensação de estar ali, vendo abaixo de meus pés montanhas impetuosas como o Dedo de Deus, auto - afirmativas como a Agulha do Diabo e aconchegantes como o Escalavrado. Realizei que descrever aquele momento com coerência e integridade aos ânimos era impossível. O Garrafão é inefável. O Garrafão cala nossas bocas. O Garrafão mostra, através de sua parede de céu azul o mundo que paira abaixo de si. Ele ri dos estupefados montanhistas deslumbrados, incrédulos do que vêem. O Garrafão abre seus braços escancaradamente e nos mostra porque existimos e ainda nos coloca sentados em seu colo para melhor absorvermos tudo o que resistimos em crer que realmente está ali.

"Não se navega o mesmo rio duas vezes". Não se sobe o mesmo Garrafão duas vezes. O sol nos agraciou com sua luz ambos os dias. Apesar de cansativa, a caminhada progredia com bom humor e o grupo de nove pessoas permanecia unido. O acampamento foi montado logo abaixo da Pedra do Sino. O vento nos castigou a noite toda trazendo frio e sons tenebrosos. O cansaço não venceu o desconforto que me trouxe o vento, o frio e a falta de espaço. Acordar cedo, contudo, foi uma benção. O céu era maestroso. Por cima de um deserto de nuvens que se expandia por onde alcançava a vista, estava uma imensa bola laranja. As montanhas ganhavam um colorido dourado e a neblina começava a se dissipar. Era hora de caminhar.

Pra quem não gosta de rapel chegar ao cume esperado é um desafio ainda maior. Primeiro, uma pequena descida de alguns poucos metros dentro de uma caverna fez meu coração saltitar - soubesse eu o que me esperava o teria poupado. Em seguida, um longo rapel por uma rocha lisa e molhada secou minha boca e umedeceu minhas mãos. Enquanto permitia que a corda me levasse à base, olhava com admiração e temor as montanhas ao meu redor. A imensidão azul era interminável e o tapete de morros verdes cobria o chão com a ilusão simétrica que a altura provoca.

Um pouco mais de coragem e lá estávamos nós; no lugar onde todas as bocas se calam e todos os olhos enxergam incrédulos: o Garrafão. Pelo resto de minha vida, espero, continuarei tendo o privilégio de assistir no vídeo-cassete de minha memória a ida ao Garrafão. Espero jamais perder os flashes que hoje deram Replay tantas e tantas vezes por trás de meus olhos.

::: Fui ao Garrafão em meados de 2005 e as lembranças permancem intactas. Felizmente :::

Tuesday, October 24, 2006

Aventura 1 - Ilha Grande



Dois Rios é um vilarejo esquecido do mundo. Hospedou, por quase 60 anos, o famoso Presídio Colonial Cândido Mendes, para onde eram levados presos políticos, que se misturavam a presos comuns. A escolha do presídio parece estratégica, já que Dois Rios fica há 12km de Abraão, maior vilarejo de Ilha Grande que, por sua vez, se localiza entre o eixo Rio-São Paulo. Certamente, a localização dificultaria as fugas e distanciaria ameaças políticas da sociedade. Hoje, após 10 anos da demolição do presídio, restaram um pingado de casas, algumas galerias em estado deplorável, ex-carcereiros e ex-presidiários da penitenciária. O vilarejo é pacato, silencioso e vazio.

A visita não se deu por acaso. Uma pesquisa e um projeto de um documentário instigaram a viagem. Queria conhecer as ruínas do presídio e entender um pouco dessa história pelas memórias daqueles que vivenciaram a carceragem, como o Seu Julio.

Os últimos dias eram de chuva, mas a metereologia indicava um final de semana nublado. Não hesitei em dar seqüência aos planos e fui com meu irmão à Ilha Grande. Do cais de Mangaratiba pegamos a barca que nos levaria até Abraão, maior vilarejo da ilha. O mar aberto estava agitado e as ondas balançavam de maneira nauseante a embarcação. Concentrei-me em respirar fundo contando os minutos para pisar em terra firme.

Finalmente andando por Abraão senti a chuva fina marcando sua presença e tive a remota sensação de que ela não iria embora até o amanhacer. Meu pressentimento se confirmou na manhã seguinte, quando nos deparamos com gotas maiores. Felizmente conseguimos emprestadas capas de chuva grossas que nos manteriam secos durante a caminhada até Dois Rios.

Com algumas orientações na mão, começamos a trilha. O verde tomava conta do cenário, as curvas se repetiam e nenhuma viva alma surgia. Após muito chão, enfileiradas, algumas palmeiras altas indicavam que estávamos próximos e logo pudemos ver Dois Rios. Se não fossem dois cachorros correndo pela praça e uma música alta que vinha de não sei onde, teria a sensação de ter entrado em uma vila abandonada.

Um rapaz jovem mostrou-se curioso com os dois turistas que surgiam encapuzados e prontificou-se a falar conosco. Logo perguntei se ele conhecia Seu Julio, ex-presidiário que eu pretendia entrevistar.

- Seu Julio, meu pai? De barba? Está ali, de capa amarela.

E de fato, do outro lado da rua estava Seu Julio, cortando côco com seu amigo. Muito solícito, não dava qualquer indicativa de que, um dia, já tirara a vida de alguém. A entrevista correu como planejado e ao término, o senhor já demonstrava ansiedade para se ver livre de nós:

- Meus amigos estão me esperando para pescar.

Agora, era preciso voltar à Abraão, percorrendo os 12km de volta. O tempo passou depressa demais naquele lugar que não parecia ter hora, dia, mês ou ano. Caminhamos em ritmo acelarado até que a noite caiu e com ela a escuridão chegou. Já não enxergávamos o caminho com clareza, sequer conseguíamos ver um ao outro. Segurei na alça da mochila de meu irmão e prosseguimos devagar, curva após curva.

Filmes de terror passavam pela minha mente, enquanto tentava cortá-los da imaginação. Quando um de nossos sensos estábloqueado, os outros parecem florescer. Os insetos que eu não conseguia ver pareciam uma sinfonia com seus diferentes sons. Andamos por tempo indeterminado, mas que bastou para nos deixar exauridos.

As luzes da cidade me deram extremo alívio e consciência de tudo o que havia passado. À noite, deitada na confortável cama da pousada respirei contente e um tanto incrédula. Não era um dia qualquer. Dois Rios não é um lugar que se esqueça, mesmo que seja esquecido do mundo.

Monday, October 23, 2006

Primeiro Parágrafo

Há muito a ser dito. Mas, não dou garantia de qualidade. Quem quiser ler, seja bem-vindo. Não tenho pretensão de formar opinião, já que a minha própria é inconstante. E diga-se de passagem, que saco seria a vida se as opiniões fossem imutáveis.

Aventura, cinema e besteirol resume com quase total maestria o meu mundo. Nas aventuras, as buscas. No cinema, o prazer. E no besteirol, o resto todo: da política à piada (não que estes sejam, necessariamente, tão distantes assim).

Aceito críticas, correções gramaticais, elogios e sugestões.